Do blog do
Milton Leite, narrador da Globo/SPORTV e dono do blog "Q Beleeeeza", que postou esse texto com o título de "Pep Legal". Muito bom ao falar de Guardiola e Barcelona.
Sou um cara de sorte.
Nasci a tempo de ver Pelé em ação – foi com ele, na Copa de 70, que
aquela seleção brasileira me arrebatou de vez para o futebol. Vi o
Flamengo de Zico, o Milan dos holandeses. A Holanda de Cruyff, Maradona,
Ronaldo… Chorei — e foi a única vez por causa do futebol — com a
seleção de 82.
E ao ler o noticiário desta sexta-feira a respeito da saída de Pep
Guardiola do comando do Barcelona, outra vez me senti afortunado. Não só
por ter vivido nestes tempos de um dos maiores times da história, mas
porque tive a possibilidade de estar lá em pelo menos dois dos muitos
feitos desta máquina que em quatro ganhou 13 títulos – além de encantar,
o que conta muito para quem tem visão de futebol semelhante à minha.
Transmiti na
TV Globo as semifinais (Barcelona x Real
Madrid) na temporada passada e estava no estádio de Wembley na grande
final contra o Manchester United. Aquele jogo numa noite de um sábado,
em Londres, foi quase um recital, uma aula daquelas que não se esquece. E
fui ao Japão para acompanhar de perto a goleada contra o Santos, em
Yokohama, no Mundial, de Clubes, transmitindo no
Sportv.
Lembro bem das entrevistas do técnico catalão nas duas
oportunidades, antes e depois dos jogos. Atendia com educação e,
principalmente, conteúdo a jornalistas do mundo inteiro, falando em
espanhol, inglês, catalão e italiano. Fiquei impressionado ao acompanhar
o último treino do Barcelona na véspera do jogo contra o United. Ele só
observou, o trabalho foi feito por outros membros da comissão técnica.
Ficou longe dos muitos holofotes, chegou com o treino começado e foi
embora antes de ele terminar – não, não era desleixo. Era trabalho em
equipe, planejamento, todo mundo já sabia o que tinha que fazer.
Quem já teve a curiosidade de ler sobre a carreira de Guardiola sabe
como ele se preparou, em que fontes bebeu (argentinos, em sua maioria) e
como soube comandar um grupo de estrelas muito acima da média. Não foi
simplesmente, como costuma acontecer por aqui, o ex-jogador que colocou
uma calça de agasalho e pendurou um apito no pescoço.
Logo que a notícia da saída foi divulgada, no Brasil começou uma
campanha pelas redes sociais pedindo Guardiola no comando da seleção
brasileira. Não tenho nada contra técnicos estrangeiros, ao contrário,
muitas modalidades já mostraram como este intercâmbio é saudável,
especialmente quando os profissionais nacionais disponíveis não
preenchem todas as necessidades. No entanto, considero pouco provável
que acontecesse uma revolução no jogo da seleção com Guardiola. Podia
melhorar em algumas questões pontuais. Mas com a estrutura do nosso
futebol, nosso calendário, o pouco profissionalismo da maioria dos
jogadores, a carência de consciência tática, dificilmente ele
conseguiria ”barcelonizar” o Brasil – que no fundo é o que todos os que
pedem por ele querem.
Guardiola anunciou que pretende ficar um ano sem trabalhar, curtindo
a família, estudando futebol, descansando. E ele acerta na decisão,
porque assumir outro time tão imediatamente a sucesso tão excepcional
geraria expectativa de que qualquer time pudesse SER Barcelona. Mas só
lá, na Catalunha, ele tem à disposição Xavi, Iniesta e Messi, para ficar
apenas nos três geniais jogadores do melhor time do mundo.